Existe uma categoria de filme que é tecnicamente excelente e comercialmente inútil. É bem filmado, bem cortado, bem musicado, e depois que toca a sala diz que ficou ótimo, e aí a conversa vai exatamente para onde ia antes. Nada se moveu.

Isso acontece por um motivo. Ninguém decidiu, por escrito, o que o filme tinha que provar.

Duas frases, antes de tudo

Antes de tratamento, antes de prancha, antes de desenhar um único quadro, escrevemos duas frases e as combinamos. Se não conseguimos escrever, não começamos.

A primeira é o gap de crença. Depois de assistir isso, o espectador precisa acreditar em X, e hoje ele não acredita. A segunda é o gap de risco. O que faz este projeto parecer arriscado é Y, e este filme tem que reduzir isso.

O que este filme precisa que alguém acredite, e a que medo ele precisa responder?

Por que duas e não uma

Crença e risco não são o mesmo eixo, e projeto costuma falhar no segundo enquanto todo mundo está ocupado com o primeiro.

Crença é sobre possibilidade. Este mundo pode existir, este tom funciona, esta voz é distinta. Risco é sobre consequência. Se eu apoiar isso, o que tem mais chance de dar errado, e o que eu teria que explicar para quem está acima de mim.

Um filme que serve só à crença produz admiração. Um filme que serve também ao risco produz movimento, porque quem decide não está só perguntando se é bom, está perguntando se é sobrevivível.

Como achar o gap de crença

Pegue a frase que você usa para descrever o projeto e repare onde as pessoas ficam quietas. O gap de crença quase sempre está escondido na oração que faz o ouvinte concordar por educação em vez de reagir.

  • Se dizem que parece interessante e perguntam como é visualmente, o gap é mundo.
  • Se dizem que parece engraçado, triste ou estranho e perguntam como você conduziria, o gap é tom.
  • Se comparam com três outros títulos de uma vez, o gap é distinção. Eles ainda não localizaram a coisa.
  • Se perguntam quem está no elenco, o gap é registro de interpretação.
  • Se perguntam quanto custa antes de perguntar o que é, o gap é escala.

Como achar o gap de risco

O gap de risco raramente é dito em voz alta, porque dizer é deselegante. Costuma vir disfarçado de problema de agenda ou de pedido de mais material. O movimento útil é perguntar direto: se você passasse deste projeto, qual seria o motivo?

As respostas se agrupam. O gênero não funcionou recentemente nesse orçamento. O tom fica entre duas coisas e pode não ser nenhuma. A premissa soa absurda resumida e só funciona quando vista. O diretor não filmou nesse porte. O mundo é caro e pode parecer barato. Cada um desses tem um filme diferente pendurado nele.

Um gap, um filme

O instinto, depois que o orçamento é aprovado, é provar tudo. Mostre o mundo, e o tom, e a ação, e os dois protagonistas, e a escala, e o final. Esse é o caminho mais rápido para não provar nada.

Um curta tem uma vaga de memória. O que você gastar nela é o que a sala leva embora. Duas provas em noventa segundos significa que o espectador não fica com nenhuma delas com confiança. Escolha o gap que está de fato travando a decisão, construa o filme inteiro para ele, e deixe todo o resto competente em vez de destacado.

O teste do fim

Quando o corte estiver travado, faça uma checagem. Mostre para alguém que tem a dúvida, e depois pergunte a ele sobre a dúvida. Não pergunte se gostou. Pergunte a dúvida direto. Se a resposta mudou, o filme funciona. Se a resposta é a mesma mas dita com mais simpatia, o filme é decoração e você descobriu enquanto ainda dá para consertar.

Essa checagem custa zero e é a única confiável que encontramos.

Esse é o primeiro estágio de todo proof of concept que fazemos. O resto do processo está na página de proof of concept.

Escreva duas frases antes de tudo: no que o espectador precisa acreditar e qual medo precisa diminuir. Um gap recebe um filme, porque um curta tem uma vaga de memória e o que você gastar nela é tudo o que a sala leva.

A primeira hora de todo projeto que pegamos é gasta escrevendo essas duas frases com você.

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